Cruzes e tapetes de flores embelezaram vila de Serzedelo em festa secular de Guimarães
Património imaterial com valor ímpar cativou, uma vez mais, vimaranenses e visitantes. Cruzes mais antigas da vila foram decoradas pelas mordomas, encarregues de transmitir esta arte para as gerações mais novas.
16 cruzes e um tapete de flores com uma extensão de 8 quilómetros enfeitaram a vila de Serzedelo, neste último fim de semana, por ocasião da tradicional Festa das Cruzes, singular festividade de Guimarães que se realiza nos primeiros dias do mês de maio, em comemoração do Dia da Santa Cruz, que este ano se celebrou precisamente neste último domingo, dia 03.
A festa envolve 16 famílias da freguesia, que se dedicam especialmente à decoração artesanal das cruzes de madeira, carvalho ou castanho, com 2 metros de altura, asseadas no sábado com pétalas de flores naturais para integrarem o percurso da Via Lucis, no domingo. O trabalho fica terminado quando se coloca no extremo da cruz uma imagem do Menino Jesus, com cerca de 20 centímetros de dimensão, vestido de cetim branco, cor-de-rosa ou azul claro, apresentando nas orlas do fato galões de ouro ou de fio metálico dourado.
Depois de ornamentada, a cruz, cuja condução é igualmente objeto de devoção, foi levada para o lugar que sempre ocupou no itinerário da cerimónia, sendo introduzida numa base de granito em forma de paralelepípedo. No passado domingo, a meio de uma tarde de chuva, insuficiente para arrefecer o entusiasmo dos participantes, as famílias, diante de cada cruz, ladeada por 16 adolescentes com uma vela nas mãos, receberam a bênção do Santo Lenho, no âmbito do ritual de cada Glória, alusiva às antigas estações da Via Sacra, num ato presidido por Luís Miguel Rodrigues.
De manhã, com o nascer do dia de domingo, as principais ruas da vila, devidamente engalanadas, acordaram esculpidas com flores naturais cujo resultado final formou um único tapete colorido para a Procissão do Senhor aos Entrevados. Pétalas de cravos vermelhos, brancos, cor-de-rosa, margaridas, espécies de cravinas ou martírios de cor roxa ornamentaram o piso por onde passou o cortejo religioso, obtendo-se um harmonioso efeito estético.
Durante cerca de quatro horas, debaixo do pálio, o pároco de Serzedelo, José Marques, levou a sagrada comunhão a 13 doentes retidos em casa, sempre acompanhado por inúmeros populares, que ainda poucas horas antes tinham estado empenhados em ‘construir’ o percurso que levou a comunhão àqueles que se encontravam impossibilitados de o fazer na Igreja – local onde principia e termina o ritual, pontuado este ano pela Banda Filarmónica de Santa Tecla de Celorico de Basto.
No âmbito da festa, a exposição itinerante “As Cruzes Floridas da Missão”, da autoria de Sara Lafuente e Ricardo Cardoso, esteve patente na Igreja de Santa Cristina de Serzedelo, depois de ter passado, entre outros locais, pela montanha da Penha, vila de São Torcato, Escola Secundária Francisco de Holanda, além das cidades do Pombal e de Fátima. No dia 27 de junho, a exposição está disponível ao público na sede da Junta de Freguesia de Serzedelo, nas comemorações do 20º aniversário da elevação à categoria de Vila.