
Exposição no Arquivo Municipal recorda Presidentes da Câmara de Guimarães na 1ª República
Seis nomes evocados em exposição comemorativa até ao fim deste mês. Primeira República Portuguesa foi o sistema político que vigorou em Portugal após a queda da Monarquia Portuguesa, entre a revolução republicana de 5 de outubro de 1910 e o golpe de 28 de maio de 1926, que resultaria mais tarde no surgimento do Estado Novo.
O Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, em Guimarães, recebe até ao final deste mês de outubro a exposição biográfica “1ª República (1910-1926): Presidentes da Câmara de Guimarães”, no âmbito das comemorações do 104º aniversário da Implantação da República em Portugal.
A exposição é constituída por um conjunto de painéis biográficos dos vários Presidentes da Câmara que, durante este período, dedicaram a sua vida à cidade de Guimarães. A entrada é livre e a mostra pode ser visitada de segunda a sexta-feira, entre as 9h15 e as 12h15 e, durante a tarde, entre as 14h15 e as 17h15.
Após a implantação da República, José Pinto Teixeira de Abreu (1910-1912) foi o primeiro Presidente da Câmara Municipal de Guimarães. Industrial e Comerciante, geria a Fábrica do Minhoto e o estabelecimento comercial “Casa dos Linhos”. Antes de 1910, Teixeira de Abreu já pertencia ao Partido Republicano Português e, em 1912, deixou a Presidência por incompatibilidade com o seu Vice-Presidente, Mariano Felgueiras. Nas crises de fome dos anos 20, ofereceu do seu bolso dinheiro para a compra de milho para fazer pão para os pobres. Em 1917, oferece-se, em conjunto com outros industriais, para sustentar os encargos do curso complementar do liceu em Guimarães, que tinha sido extinto.
Mariano Felgueiras (1912-1917; 1919; 1923-1926), empossado como Presidente, em 1912, foi a grande figura local da República nos seus dezasseis anos de regime. Em 1910, é designado Vice-Presidente da Câmara e, dois anos depois, é nomeado Presidente, cargo que exerce até 1917.
Na sequência do golpe militar de Sidónio Pais é afastado mas, após o fim da “Monarquia do Norte”, em 13 de fevereiro de 1919, com o regresso dos republicanos ao poder, encabeça uma nova Câmara integrada por todos os partidos republicanos: Democráticos, Evolucionistas, Unionistas e Socialistas.
Restabelecido o regime, no final do ano há eleições e, em Guimarães, ascende ao poder o chamado “Partido Dissidente” (cisão do PRP) e Mariano Felgueiras deixa a Câmara. Em 1923, regressa mais uma vez para presidir ao Município até à dissolução da Câmara pelos militares que dirigiram o 28 de maio de 1926.
Em 1918, durante o regime presidencialista de Sidónio Pais, João Rocha dos Santos (1918-1919) foi outro Presidente que liderou a Câmara de Guimarães. Advogado, monárquico, tinha já sido Vereador Municipal em 1908/1909 nos últimos anos da monarquia. Foi um tempo de grandes dificuldades provocadas pela I Grande Guerra, em que faltou pão e todos os géneros alimentares.
Rocha dos Santos tentou apoiar-se no Povo contra os políticos republicanos com a distribuição de milho, mas não foi bem-sucedido. Quando ocorre a “Monarquia do Norte”, em 1919, já depois do assassinato de Sidónio Pais, jura fidelidade ao regresso da Monarquia, mas é demitido pelos “monárquicos puros” que não lhe perdoaram ter servido as instituições republicanas. Regressou mais tarde, durante o regime do “Estado Novo”, com António de Oliveira Salazar, à Presidência da Câmara de 1931 a 1934 e de 1939 a 1945.
QUATRO PRESIDENTES EM TRÊS ANOS
Com o advento da “Monarquia do Norte”, em janeiro de 1919, assume a Presidência da Câmara Joaquim de Oliveira Bastos, advogado e monárquico convicto, cargo que ocuparia até 13 de fevereiro desse ano. Da sua carreira de advogado de grande prestígio destaca-se o apoio prestado aos monárquicos perseguidos durante a 1ª República e mesmo a alguns republicanos perseguidos durante o Sidonismo.
Francisco Moreira Sampaio (1919-1922) assumiu a Presidência da Câmara após as eleições de 1919, ganhas pelo “Partido Dissidente”. Moreira Sampaio, notário de profissão, foi uma destacada figura do Partido Republicano Português e presidiu ao Senado da Câmara logo após as primeiras eleições municipais da República, em 1913. Foi um colaborador de Mariano Felgueiras (1919) e uma figura tutelar dos republicanos locais.
Em 1919, integrou o grupo que cindiu do Partido Democrático e que formou o “Partido Dissidente”. A Vereação por si presidida incluía vários notáveis e foi um elenco muito pouco presidencialista. Nela emergiu AL de Carvalho, Vice-Presidente. Moreira Sampaio demitiu-se, antes do fim do mandato, em abril de 1922, e nunca mais interveio na vida política, embora se tivesse mantido na cidade, no exercício das suas funções de notário.
António Lopes de Carvalho (1922), conhecido pelas iniciais de AL de Carvalho, publicista e notável investigador, também integra o painel expositivo. Dedicou-se desde muito jovem à propaganda republicana, é um dos responsáveis pela criação do centro republicano vimaranense, em 1906, e fundador do semanário “Alvorada”.
Foi poucos meses Presidente da Câmara, entre maio e dezembro de 1922, mas marcou-a intensamente. É o adversário de Mariano Felgueiras nos anos da República. Desenvolve grandes polémicas que apaixonaram a cidade, com críticas mas também com campanhas a favor de investimentos municipais. Mais tarde, seria Vereador numa Câmara do “Estado Novo”, regime político que apoiou criticamente, auto definindo-se como «Salazarista heterodoxo».